martes, 20 de octubre de 2015

HOY FIRMA: ATALAIRE. "HÖLDER, DE HÖLDERLIN de MARIA GABRIELA LLANSOL".


HÖLDER, DE HÖLDERLIN

MARIA GABRIELA LLANSOL


Nota introductoria


HÖLDER, DE HÖLDERLIN es un texto breve de Maria Gabriela Llansol, fechado en 1985. 

La autora, ya publicada en La Galla Ciencia (un fragmento de El Libro de las Comunidades en el Número UNO y Amar a un perro como plaquette aneja al Número TRES), toma pie en un encuentro fabuloso entre Hölderlin, Jesús y Giordano Bruno en casa de Myriam, la mente de Llansol. Hölderlin es aquí el carvalho, la figura del roble, el árbol indoeuropeo por excelencia. El texto llansoliano, como lugar de encuentro, pues para Llansol el texto aspira a ser, no a decir, proporciona una aproximación a la locura de Hölderlin ante su último poema bajo el prisma del  lenguaje: de la producción de significado al puro sonido.

En esta edición, hemos respetado la ortografía original, anterior al Acuerdo Ortográfico vigente.

En la sección HOY FIRMA de 28 de abril de 2015  puede leerse "Un ritmo poético huyendo…" Hölderlin en Llansol,  brillante artículo de João Barrento, quizá el más profundo conocedor de la obra de Maria Gabriela Llansol.



Atalaire








HÖLDER, DE HÖLDERLIN

MARIA GABRIELA LLANSOL

Edición bilingüe
Traducción del portugués: Atalaire



I ___________este é um abrigo na orla do bosque − metade árvore, metade construção de ramos mortos;                     
 nesta árvore de vida, o declive do telhado é firme, impenetrável à erosão da chuva;                como cada um chegou com a sua árvore –Hölderlin com quaercus, Joshua com pinus lusitanus, Giordano com a sua nogueira, há três árvores em torno da porta aberta de par em par;
uma união às portas do paraíso;
este é, de facto, um bosque de pinheiros marítimos um pinhal, e a agitação do vento circula na base, impelindo as janelas a uma velocidade de grande rapidez;                           aqui as estrelas brilham por cima das cabeças, e os cheiros vindos do mar entram pelas narinas, e os orifícios das raízes;                                Hölderlin (quaercus, do nome de carvalho) sentiu uma grande ausência: a sua cabeça ia abandoná-lo, e ele levantou-se ainda para ir no seu encalço com os braços; tudo principiava pelo som – o som de fazer o último poema.

_________ Hölderlin sentou-se silencioso à mina frente que sou casa –não disse nada− mas eu conhecia quais eram os seus verdadeiros pensamentos pela inconstância do seu olhar; olhar                                   
que me era dirigido, longa e baixa,
que terminava nas paredes e principiava nas janelas.
Do outro lado do mar, realizando-se num só instante, havia a floresta onde tinham sido abatidas algumas árvores para dar nascença primeiro ao parque, depois ao jardim; mas restavam ainda massas vegetais que difundiam um raio de figuras verdes que metiam medo a Hölderlin; ele morava em mim                                           
rectangular com triângulos arquitectónicos sobre as janelas,
e janelas de vidros multicores
de onde se perdia de vista o meu próprio interior sombrio.
Os cavalos chegavam e partiam com pancadas certas sobre as lájeas, e os mensageiros cruzavam-se com as suas cartas à volta de Hölderlin,
que esperava;


ele dava o passeio da noite, com as botas produzindo um bater intermitente nos bordos da floresta; tinha receio da árvore-maior –da sua árvore quaercus−, onde tronco, folhas, altura brilhavam, ou
escureciam de grandeza; eu sabia que ele jamais penetrara no seu domínio inalterável e incorruptível porque, atravessando-o em linha recta, julgava ter uma estatura menor do que ese génio da natureza.
Ao som de «natureza» ouviu o gemido de um cavalo atravessar os ares, e o último mensageiro –o das dez horas−, pedir uma cerveja, e deitar a carta no cesto de pão que estava sobre a pedra.
  «Agora pergunto-te,
dizia a carta,
os deuses da Grécia morreram?»
Era a forma de afirmar, perguntando, que os deuses de Grécia morreram. «Sim, morreram», comprovou Hölderlin, sabendo o que lera. «E eu, suspirou, como viver sem essa diferença entre os deuses e os homens?» Olhou para mim que avaliou, ao longe, incapaz de renovação, e sem luzes;
Avançou para as minhas janelas com uma hesitação que se ia multiplicando; procurou-me a porta, e não encontrou nenhum sentido.
«Será que o Cristo apagou os deuses, e dividiu em miríades de luzes dispersas o meu espírito?».
Alguém –que sou eu−, estava a meio da porta e o recebeu com um abraço universalmente verdadeiro.

II             «Como a tua cabeça configura uma árvore», disse Myriam, abrindo o vestido para lhe deitar o leite na chávena de Saxe. «Estais unidos como irmãos».  Quando a chávena ficou cheia, voltou o mamilo para o vaso em que servia o leite.
«Quero que me deixem totalmente na floresta –ouvia-o dizer; não tenho medo de perder-me porque, para a minha alma, o perigo é nulo.»
O fio de leite tinha o pendor de Diotima quando ela se debruçava sobre ele: ela desenhava , ele estudava ___________ as crianças sentiam-se presas ao encanto de Hölderlin, e não ao livro aberto; era a hora da sonolência que sobrevinha ao estudo, não havia mais um único estímulo na sala. O cálculo fazia-se noutra mesa, e Hölderlin, com uma excessiva palidez no rosto, falava-lhes do pigmento que dá cor verde aos vegetais; Diotima afastava os reposteiros pesados que cobriam a porta, e desaparecia com o estofo macio da saia roçando pelo chão; o sonho tinha a composição do seu corpo nu jamais entrevisto
e a sala que se extinguia na sua memoria, sem deixar vestígios,
estava aberta, encostada  a um ninho,
que era o seio nascente de Diotima,
e da árvore;
a partir da coroa do seio desenvolvia-se uma penumbra violácea que concentrava a atenção.

III            na areia, a vinte passos do mar, era ele, falava com o pôr-do-sol: «por que é que o poente nunca é tão intenso como o regaço»; a falar, perguntava, e a adorar lançava-se a subir a escada do entendimento, num ritmo a que fechava os olhos; por detrás dele, estava Joshua carregado com  seu pinheiro –ambos um só; sentia, no momento da adoração, a sua presença íntima, como sentia a areia das impressões de luz reenviadas pelo mar; não dizia mais nada, a sua garganta melódica emudecia –era profundo e rutilante o disco do sol poente; via-se nitidamente envolvido pelas letras do seu nome, e toda a paciência que havia de esgotar na sua vida fixara-se nesse sol poente –no horizonte; com a adoração −subitamente−, subiu-lhe aos lábios a Paixão: louco, e com paciência dizia a areia caindo com cor da clepsidra das suas mãos; ouvia sons nasalados que brilhavam ao crepúsculo do mar; Myriam viu o dia aureolado por este momento excepcional, e pensou: «É uma árvore demente, crescendo à beira da falesia.»

IV           hoje, mal Myriam se levante, pensará, de facto, na estrutura do poema-poente enquanto põe a mesa para o café; com o cabelo espalhado sobre os olhos –e o seu ar de harmonia franzina−, quem diria que é Myriam que ali está?; será o que lhe há-de soprar ao ouvido Hölderlin –que ainda se encontrou dentro dela−, e que ela vê com ternura, e por um caminho ladeado de barreiras: erro humano num copo de cristal. Tudo se irá passar então em fases breves,
fazendo rodar o poliedro do tempo.

Na casa seguinte, Myriam teve um pequeno almoço nostálgico em face da língua de Hölder, nome que lhe daria para o futuro,
e que anunciava, com a tristeza alegre que fazia, o prelúdio de uma nova intimidade: “Tereis uma intimidade bíblica”, pensou Joshua que derrubava as árvores atingidas para lá da courela comprida e estreita. “Tão bela e pensa”, reteve, machão. Teve, depois, com a broa, uma relação em três movimentos: retirá-la do tecido lavrado de linho; parti-la; e dá-la a Hördelin que formava, com o olhar, um certo encanto sobre a toalha; mas, com o seu pendor para a distância, Myriam tinha-se evadido para uma outra casa ainda mais avançada, e passara à janela da cozinha onde a água fervia sobre alguns carvões e cinza. Hölderlin quis ser ele a pegar na chaleira: ela devia ser apenas o seu diamante de doçura. «Tudo é tão ligeiro que cairá sem e ver».

V  Joshua, que não desejava dar-lhes um espectáculo de violência, tentava ainda, com cordas, segurar o pinheiro para que ele se abatesse lentamente sobre a erva; naquele momento de leveza, a força da árvore que caía, podia causar-lhes sobressalto; orientou-a numa direcção oposta a mim, e a árvore foi descendo num «ângulo puro», segundo os olhos de Myriam que, mastigando o pão, o observava. Joshua olhou-os através do vidro, e foi uma das recordações que ele havia sempre de guardar, pondo-a ao lado das que trazia sobre a sua infância; neste momento, a árvore rolou sobre o solo; soara a hora final daquela fase do dia.

VI   _________ o jardim triangular passou, no fim deste ano, da minha posse à posse de outra casa; perdi, pois, uma das minhas vias de expansão no Pinhal, daquele lado, o céu partiu, o pardo partiu, já não há território por onde avançar, e é do lado oposto que se desenham as linhas de comunicação com os que moram longe; de facto, a presença de Hôrdelim levou-me a um abismo muito alto que tem no cume a companhia e, no fundo, só ermo. Desse ponto no cume, só ele vê pequenas moradas isoladas onde, em cada, há um habitante com a sua auréola de fulgor. Na luz, há zonas húmidas, a pequeníssima partícula vegetal, a pequeníssima partícula animal, a insignificante partícula humana a quem foi entregue o governo de todo o reino.
                Como sempre acontece com Hôlderlin que tenta dispersar uma multidão de imagens que se cruzam no poema: «Se um conjunto de erva é muito basto, mais rapidamente se enovela»,
pensa para si,
ignorando que ouço e vejo.

VII ___________ à minha volta, havia o seu quercus e árvores dependentes. Nascera, em alto grau, com a capacidade de sentir. / Tornara-se rapidamente árvore – inteligência com frutos. / No meio aquoso da seiva – não ouvia, não falava – de objetos inúteis. / Sentia a inteligência brilhando no fundo de todos os sentimentos. Olhos, mãos, sentido do olhar eram simultâneos. / A fadiga de estar sempre diante de uma resposta tomara-o por completo. / Mas, no ano seguinte, a fadiga de estar sempre diante desse mesmo obstáculo levantara-lhe, finalmente o queixo - as hastes - por cima de todas as copas e cabeças. / A sua sombra era água, e as articulações que cruzavam os ramos mantinham-se húmidas. A água tinha expressão: descrevê-la era um trabalho infindável que se perdia na floresta. Melhor seria dizer um redemoínho-poema.

Havia igualmente um poço. Pinhas no chão. E, depois, eu própria, com um silhar, e uma parede sem aberturas. Um polígono irregular. Uma porta. De tàbuas; e o som longínquo de uma angústia que se não pode representar, e se aproxima.
Uma tempestade? Uma tempestade num poço, ouvi pensar Joshua cruzando o seu olhar com a minha única janela de adufas fechadas. Era o quarto de Hôlderlim, por detrás de grades. Mas era ele que cantava, e tornava tudo global, e belo.

VIII   _________ todos os dias tinha uma energia brilhante em que falava com Myriam, Joshua, Giordano. Era-lhe necessário vencer um obstáculo, pegar num grande peso, arrostar, vergar qualquer ideia ao seu sentimento interior (ainda não manchado). Neste processo de transformação vibrante da sua própria pele, a claridade, o tempo, o cheiro de pinheiros que todos respiravam era, essencialmente, brisa e método.
                Diferente era Joshua.
                Joshua tinha a vontade férrea de ler os textos sagrados, e de compreender. Não tinha um culto de veneração. Anjos e santos não eram escravos. Tinha ainda outra vontade férrea: referir conjuntamente, a esses textos, inteligência e sensibilidade. Um pinheiro, vendo-o debaixo da sua copa, a tentar estudar o andamento no Livro, tornara-o semelhante. «Eu não cedo. Cavarei um fosso onde a passagem a outra vontade é impossível», disse, quando ainda arbusto, quiseram impr-lhe o baptismo da primeira poda.

Ao vê-los ao lado da nogueira de Giordano, pensei:

«a mulher que os criou era muito mais que mãe; o seu seio não era leite _________ era um brinquedo _________ o anjo que os tem nos olhos __________ está ausente _________ uma chuva de prata rompe a floresta sobre as trevas ___________ é porque brincam que estão a chorar ____________ prece e distracção são iguais no seu absoluto __________ progrediam muito e completavam-se _________ um dia brincaram a er árvore, e ficaram árvores.»

                Deram-me o nome de Casa de Quaercus, e Hôlderlim foi meu.

Até que os ouvi,
Falar em nomes de cidades que nunca vi:
Strasbourg ; Lyon ; Colmar ; Belfort ; Besançon, o val do Doubs, Dôle, Châlon, o val do Saône, Maciço Cen, Tulle, Périgueux, Isle e, por fim, Bordéus.

                Este foi um dos seus percursos. Nos seis meses anteriores, quando a sua mortificação mental revestira uma forma impaciente, não havia lugar em mim em que pudesse reflectir-se. Tudo lhe parecia costas marítimas inacessíveis, e quadrúpedes a fugir. A sua cama, dizia ele, projectava-se sucessivamente para todos os lados do horizonte. Os seus amigos eram chamados pela sua sombra mas ninguém respondia ao seu apelo. O seu ânus caira na bacia, e a substância rija do sexo repetia-se por palavras; e os seus poemas tinham revestido a superfície externa do seu crânio.
                Ninguém pode apresentar-lhe o espelho, e cortar-lhe o cabelo á tesoura. Que alta é a pequena casa do mundo, lia-se-lhe nos olhos. Tinha a cabeça branca á frente, e escura atrás; assim expressava a substituição parcial da razão pela loucura; embarcara neste seu olhar sobre paisagem, que está contendo a maior parte do silêncio; do outro lado, ousando ir plantar-se, solitário, entre pinheiros, o seu carvalho esperava-o.

                Não suporta que haja espelhos na casa; pôs-se a fazer aparecer verbalmente figuras luminosas sobre as suas próprias espáduas, e deixou-se ir vogando sobre mim apertando o cabelo sobre a nuca. O cabelo que ninguém corta traz uma liberdade infinita aos ombros – e o homem desmultiplicado dorme.

                Hoje, alguém procurou Myriam: - Há aqui um saber perdido?
-  É uma visão comovente de Hölderllin – respondeu ela: ; Mas não devemos tentar a sua castidade sem susto.

                IX    Foi a ultima forma que lhe vi com um pensamento claro «entrei aqui por amor pelo monstro – pensara ele, momentos antes -, e perdi o equilíbrio dos ramos da árvore que balança; não sei o que diretamente se passa porque há um vidro entre mim e eles pendurado nos ramos da árvore;  são seres elementares
Que não têm nenhum poder de introspecção, e oscilam a cabeça com ar de cretinos; se, com o futuro, eu assim me hei-de tornar, oriento-me pelos olhos de Joshua que afirmam para mim, e seguindo agora os dizeres de Giordano acerca do infinito, do universo e dos mundos, que «a mão já não está no braço,
os olhos no rosto,
o pé na perna,
a cabeça no busto.»
Embora viajante, Joshua sempre me há-de alojar no quarto com a janela e, se partir, deixará no ar uma ponta do seu corpo
para que eu a agarre;
por que hei-de ter medo?
É um homem-vulto com lados graves e leves para seres que, como eu, têm olhos, e não rosto;
pouca-locura não é uma perfeita inconsciência da grande alegria sobre a terra?; mas as contradições fulgurantes destas máximas da atmosfera, deixaram-me ainda a melhor parte.»

                X    __________ estava ali um anel armado com uma gema azul escuro, com os cantos arredondados, talhada e polida; era um anel de Joshua que estava no lugar de mesa; cada um ocupava um lado da safira, excepto Giordano que ainda não chegara; Joshua, que os amava e escarnecia, disse-lhes:
                «Se não acreditais que eu seja filho de Deus dotado de razão, trazei-me árvores de lama. As aves começarão a viver, a elevar-se nos céus.»

                Hölderlin brincava ali, saltando; ia-se perdendo na sala; via-se deslizar com ele um lugar sem criatuas humanas.
Myriam pensou para Joshua: «perder-se
no outro perdido
é a experiência que está a ter.» Tinha nas mãos uma porção de excremento humano, que tentava moldar numa superfície de poema; mas a angústia, de modo imerecido, fazia-o saber que a loucura era a mente estar com o poema, e o corpo ausente.

                «Por que se perdeu?», perguntou Joshua. «Diz-me, Hölderlin, como se diz, na tua língua, distante como a palma da mão?».
«Uuu», respondia-lhe.
                «Repete, Hölderlin, eu nunca sentira arrependimento por partir, nem remorsos por ficar.»
«Iii»
«Diz-me, Hölderlin, a tua razão de partir não foi o amor?»
«Ooo.»

                XI     Nem com aquele murmúrio contínuo de perguntas seria possível trazê-lo de volta. «Nunca mais», reconheceu com o seu realismo quase cruel, «se tornará a alegrar com o sentimento de que estamos com ele».
                Era o contrário que acontecia.
                Myriam via crescer no rosto dos que possuíam o uso da razão um riso forçado para dissimular o que viam; no meio de ovos e de pequenos animais que tinham ficado sobre a mesa e á porta da sala, Hölderlin masturbava-se embalando-se no murmúrio encantatório de palavras Grécia deuses Grécia sol Joshua Joshua Cristo.

A excitação sexual foi-se marcando em todos, em torno do pobre tonto. Nenhuma lama se transformara em pássaro. Nessa situação de desejo sensual profundo, Giordano Bruno acabara de entrar. Teria dito
O que é escabroso no amor é que não tem anel; mas nada disse, nos seus pulmões o ar parecia penetrar por meio de uma bomba e todas as outras imagens

haviam
sido, longe,
hermeticamente fechadas. Até hoje.

Körtemberg, 23 de Junho de 1985

                   
                    


 HÖLDER, DE HÖLDERLIN


I ———————este es un refugio en el lindero del bosque ———mitad árbol, mitad construcción de ramas muertas;
en este árbol de vida la pendiente del tejado es firme, impenetrable a la erosión de la lluvia;
como cada uno ha llegado con su árbol — Hölderlin con quaercus, Joshua con pinus lusitanus, Giordano con su nogal, hay tres árboles alrededor de la puerta abierta de par en par;
una unión a las puertas del paraíso;
este es, de hecho, un bosque de pinos marítimos —un pinar— y la agitación del viento circula en la base, empujando a las ventanas a una velocidad de gran rapidez;
aquí las estrellas brillan por encima de las cabezas y los olores venidos del mar entran por las narices y los orificios de las fosas nasales;
Hölderlin (quaercus, por el nombre del roble) sintió una gran ausencia: su cabeza iba a abandonarlo y, aun así, se levantó para ir en su busca con los brazos; todo empezaba por el sonido —el sonido de hacer el último poema.
—————Hölderlin se sentó silencioso delante de mí que soy casa —no dice nada— pero yo sabía cuáles eran sus verdaderos pensamientos por la inconstancia de su mirada; mirada
que se dirigía a mí, larga y baja,
que terminaba en las paredes y empezaba en las ventanas.
Al otro lado del mar, realizándose en un solo instante, estaba el bosque donde habían sido abatidos algunos árboles para dar nacimiento primero al parque, después al jardín; pero quedaban aún masas vegetales que difundían un rayo de figuras verdes que daban miedo a Hölderlin; él moraba en mí
rectangular con triángulos arquitectónicos sobre las ventanas
y ventanas de cristales multicolores
de donde se perdía de vista mi propio interior sombrío.
Los caballos llegaban y partían con golpes seguros sobre las losas y los mensajeros se cruzaban con sus cartas alrededor de Hölderlin;
que esperaba;
él daba el paseo de la noche, produciendo con las botas un golpeteo intermitente en los linderos del bosque; tenía miedo del árbol mayor —de su árbol quaercus— donde tronco, hojas, altura brillaban u
oscurecían de grandeza; sabía que él jamás había penetrado en su dominio inalterable e incorruptible porque atravesándolo en línea recta creía tener una estatura menor que ese genio de la naturaleza.
Al sonido de «naturaleza» oyó el gemido de un caballo atravesar los aires y al último mensajero —el de las diez horas— pedir una cerveza y echar la carta en el cesto del pan que estaba sobre la piedra.
«Ahora te pregunto,
decía la carta,
¿murieron los dioses de Grecia?
Era la forma de afirmar, preguntando, que los dioses de Grecia habían muerto. «Sí, murieron», comprobó Hölderlin sabedor de lo que había leído. «Y yo, suspiró, cómo viviré sin esa diferencia entre los dioses y los hombres». Miró hacia mí, a quien valoró, desde lejos, incapaz de renovación y sin luces;
 Avanzó hacia mis ventanas con una vacilación que se iba multiplicando; me buscó la puerta y no encontró ningún sentido.
«¿Habrá apagado Cristo a los dioses y dividido en miríadas de luces dispersas mi espíritu?»
Alguien —que soy yo— estaba en medio de la puerta y lo recibió con un abrazo universalmente verdadero.

II «Como tu cabeza configura un árbol», dijo Myriam, abriendo el vestido para echarle leche a la taza de Sajonia. «Estáis unidos como hermanos». Cuado la taza se hubo llenado, volvió el pezón al vaso donde se servía la leche.
«Quiero que me dejen completamente en el bosque —le oía decir; no me da miedo perderme porque, para mi alma, el peligro es nulo.»
El chorro de leche tenía la inclinación de Diótima cuando se inclinaba sobre él: ella dibujaba, él estudiaba ———————los niños se sentían presa del encanto de Hölderlin y no del libro abierto; era la hora de somnolencia que sobrevenía al estudio, no había otro estímulo en la sala. El cálculo se hacía en otra mesa y Hölderlin, con una excesiva palidez en el rostro, les hablaba del pigmento que da color verde a los vegetales; Diótima apartaba los reposteros pesados que cubrían la puerta y desaparecía con el suave tejido de la saya rozando por el suelo; el sueño tenía la composición de su cuerpo desnudo nunca entrevisto
y la sala que se extinguía en su memoria, sin dejar vestigios,
estaba abierta, apoyada en un nido
que era el seno naciente de Diótima
y del árbol;
a partir de la corona del seno se extendía una penumbra violácea que concentraba la atención.

III  en la arena, a veinte pasos del mar, estaba él, hablaba con la puesta de sol: «por qué poniente nunca es tan intenso como el regazo»; hablando, preguntaba, y adorando se lanzaba a subir la escala del entendimiento a un ritmo que cerraba los ojos; por detrás de él estaba Joshua cargado con su pino ——— ambos uno solo; sentía en el momento de la adoración su presencia íntima como sentía la arena de las impresiones de luz enviadas por el mar; no decía nada más, su garganta melódica enmudecía ——— era profundo y rutilante el disco del sol poniente; se veía nítidamente envuelto por las letras de su nombre y toda la paciencia que había de agotar en su vida se había fijado en el sol poniente —en el horizonte; con la adoración —súbitamente— le subió a los labios la Pasión: loco, y con paciencia, decía la arena cayendo con color de clepsidra de sus manos; oía sonidos nasales que brillaban en el crepúsculo del mar; Myriam vio el día aureolado por este momento excepcional y pensó: «Es un árbol demente, que crece al borde del acantilado.»

IV  hoy, en cuanto Myriam se levante, pensará, de hecho, en la estructura del poema-poniente mientras pone la mesa para el café; con el cabello caído sobre los ojos —y su aire de armonía de formas delicadas—, ¿quién diría que es Myriam la que está allí?; será lo que le ha de soplar al oído Hölderlin —que aún se encuentra dentro de ella— y que ella ve con ternura y por un camino flanqueado de vallas: error humano en un vaso de cristal. Todo pasará entonces en fases breves,
haciendo rodar el poliedro del tiempo.

En la casa siguiente Myriam tuvo un desayuno nostálgico ante la lengua de Hölderlin, nombre que le daría en el futuro
y que anunciaba, con la tristeza alegre de daba, el preludio de una nueva intimidad: «Tendréis una intimidad bíblica», pensó Joshua, que echaba abajo los árboles alcanzados más allá de la parcela larga y estrecha. «Tan bella y piensa», retuvo, marimacho. Tuvo después con la borona una relación en tres movimientos: retirarla del tejido bordado de lino; partirla; y dársela a Hölderlin que formaba, con la mirada, un cierto encanto sobre el paño; pero con su inclinación a la distancia Myriam se había evadido a otra casa aún más avanzada y había pasado por la ventana de la cocina donde el agua hervía sobre algunos carbones y ceniza. Hölderlin quiso ser él quien tomara la tetera: debía ser apenas su diamante de dulzura. «Todo es tan ligero que caerá sin verse.»

V  Joshua, que no deseaba darles un espectáculo de violencia, intentaba ahora con cuerdas, asegurar el pino para que se abatiera lentamente sobre la hierba; en aquel momento de ligereza la fuerza del árbol que caía podía causarles sobresalto; se orientó en una dirección opuesta a mí y el árbol fue descendiendo en un «ángulo puro», según los ojos de Myriam que, masticando el pan, lo observaba. Joshua miró a través del cristal y fue uno de los recuerdos que había de guardar siempre, poniendo a un lado los que traía de la infancia; en este momento el árbol rodó por el suelo; había sonado la fase final de aquella fase del día.

VI  ————— el jardín triangular pasó, a finales de este año, de mi propiedad a propiedad de otra casa; perdí, por tanto, una de mis vías de expansión en el Pinar, de aquel lado el cielo partió, el prado partió, ya no hay territorio por donde avanzar y, del lado opuesto, se perfilan las líneas de comunicación con los que viven lejos; de hecho, la presencia de Hölderlin me llevó a un abismo muy alto que tiene en la cumbre la compañía y en el fondo solo desierto. De ese punto de la cumbre solo él ve pequeñas viviendas aisladas donde en cada una hay un habitante con su aureola de fulgor. En la luz hay zonas húmedas, la pequeña partícula vegetal, la pequeña partícula animal, la insignificante partícula humana a quien le fue entregada el gobierno de todo el reino.
Como sucede siempre con Hölderlin que intenta dispersar una multitud de imágenes que se cruzan en el poema: «Si un conjunto de hierbas es my espeso, más rápidamente se enmaraña», piensa para sí, ignorando que oigo y veo.

VII   —————— a mi alrededor estaba su quaercus y árboles dependientes. Había nacido, en alto grado, con la capacidad de sentir./Se había vuelto rápidamente árbol —inteligencia con frutos./ En el medio acuoso de la selva —no oía, no hablaba— de objetos inútiles./ Sentía la inteligencia brillando en el fondo de todos los sentimientos. Ojos, manos, sentido de la vista eran simultáneos./ La fatiga de estar siempre delante de una respuesta lo había conquistado por completo./ Pero, al año siguiente, la fatiga de estar siempre delante de ese mismo obstáculo le había levantado finalmente el mentón —los retoños— por encima de todas las copas y cabezas./ Su sombra era agua y las articulaciones que cruzaban las ramas se mantenían húmedas. El agua no tenía expresión: describirla era un trabajo interminable que se perdía en el bosque. Mejor sería decir un remolino-poema.
Había igualmente un pozo. Piñas en el suelo. Y, después, yo misma, con un sillar y una pared sin aberturas. Un polígono irregular. Una puerta. De tablas; y el sonido lejano de una angustia que no puede representarse y se aproxima.
¿Una tempestad? Una tempestad en un pozo, oí pensar a Joshua cruzado su mirada con la única ventana con las persianas echadas. Era la habitación de Hölderlin, por detrás de rejas. Pero era él quien cantaba y volvía todo global y bello.

VIII   ———————— todos los días tenía una energía brillante en la que hablaba con Myriam, Joshua, Giordano. Le era necesario vencer un obstáculo, tomar un gran peso, resistir, someter cualquier idea a su sentimiento interior (aún no manchado). En este proceso de transformación vibrante de su propia piel la claridad, el tiempo, el olor de los pinos que todos respiraban era, esencialmente, brisa y método.
Diferente era Joshua.
Joshua tenía la voluntad férrea de leer los textos sagrados y comprenderlos. No tenía un culto de veneración. Ángeles y santos no eran esclavos. Tenía además otra voluntad férrea: referir conjuntamente a esos textos inteligencia y sensibilidad. Un pino, viéndolo debajo de su copa, intentando estudiar la andadura en el Libro, lo había vuelto semejante. «No cedo. Cavaré un hoyo donde el paso a otra voluntad sea imposible», dijo, cuando siendo aún arbusto habían querido imponerle el bautismo de la primera poda.

al verlos al lado del nogal de Giordano pensé:

«la mujer que los ha criado era mucho más que madre; su seno no era de leche ———era un juguete ————— el ángel que los tiene en los ojos —————————
está ausente ————— una lluvia de plata rompe el bosque sobre las tinieblas ————— es porque juegan a que están llorando ——————— oración y distracción son iguales en su absoluto ———————— avanzaban mucho y se completaban —————— un día habían jugado a ser árboles y se habían hecho árboles.

Le habían puesto el nombre de Casa de Quaercus y Hölderlin fue mío.

hasta que los oí,
hablar de nombres de ciudades que nunca he visto:
Esrasburgo – Lyon – Colmar- Belfort – Besançon – el valle de Doubs, Dôle, Châlon, el valle del Saona, Macizo Central, Clermont – Ussel, Tulle, Périgueux, Isle y, por último, Burdeos.
Este fue uno de sus recorridos. En los seis meses anteriores, cuando su mortificación mental había revestido una forma impaciente, no había un lugar en mí donde pudiera reflejarse. Todo le parecía costas marítimas inaccesibles y cuadrúpedos en fuga. Su cama, decía él, se proyectaba sucesivamente sobre todos los lados del horizonte. Sus amigos eran llamados por su nombre, pero ninguno respondía a su llamamiento. Su ano había caído en el bacín y la sustancia dura del sexo se repetía en palabras; y sus poemas habían recubierto la superficie externa de su cráneo.
Nadie puede presentarle el espejo y cortarle el cabello a tijera. Qué alta es la pequeña casa del mundo, se le leía en los ojos. Tenía la cabeza blanca por delante y oscura por detrás; así expresaba la sustitución parcial de la razón por la locura; se había embarcado en esta mirada suya sobre paisaje, que está conteniendo la mayor parte del silencio; por otro lado, atreviéndose a ir a plantarse, solitario, entre pinos, su caballo lo esperaba.
No soportaba que hubiera espejos en la casa; se puso a hacer aparecer verbalmente figuras luminosas sobre sus propios omoplatos y se dejó ir navegando sobre mí apretando el cabello sobre la nuca. El cabello que nadie corta lleva una libertad infinita en los hombros — y el hombre desmultiplicado duerme.
Hoy alguien buscó a Myriam: — ¿Hay aquí un saber perdido?
—Es una visión conmovedora de Hölderlin —respondió ella—: Pero no debemos tentar su castidad sin miedo.

IX  Fue la última forma que lo vi con un pensamiento claro «he entrado aquí por amor al monstruo — había pensado él momentos antes— y perdí el equilibrio de las ramas del árbol que se mece; no sé lo que pasa directamente porque hay un cristal entre ellos y yo colgado de las ramas del árbol;
son seres elementales
que no tienen ninguna capacidad de introspección y mueven la cabeza con aire de cretinos; si, en el futuro, me he de volver así, me oriento por los ojos de Joshua que afirman para mí y siguiendo ahora los decires de Giordano acerca del infinito, el universo y los mundos, que «la mano ya no está en el brazo,
los ojos en el rostro,
el pie en la pierna,
la cabeza en el busto.»
Aunque viajante, Joshua siempre me tiene que alojar en habitación con ventana y, si se va, dejará en el aire una punta de su cuerpo para que la agarre;
¿por qué voy a tener miedo?
Es un hombre-rostro con lados graves y leves para seres que, como yo, tienen ojos y no rostro; ¿poca-locura no es una perfecta inconsciencia de la gran alegría sobre la tierra?; pero las contradicciones fulgurantes de estas máximas de la atmósfera me habían dejado, sin embargo, la mejor parte.»

X  —————— estaba allí un anillo engarzado con una gema azul oscuro, con los cantos redondeados, tallada y pulida; era un anillado engarzado con un zafiro azul oscuro; era el anillo de Joshua que estaba en el lugar de mesa; cada uno ocupaba un lado del zafiro, excepto Giordano que no había llegado todavía; que los amaba y escarnecía, les dijo: «Si no creéis que sea hijo de Dios dotado de razón traedme árboles de barro. Las aves comenzarán a vivir, a elevarse en los cielos.»
Hölderlin jugaba allí, saltando; se iba perdiendo en la sala; se veía deslizarse con él un lugar sin criaturas humanas. Myriam pensó para Joshua: «perderse en otro perdido
es la experiencia que está teniendo.» Tenía en las manos una porción de excremento humano, que intentaba moldear en una superficie de poema; pero la angustia, de modo inmerecido, le hacía saber que la locura era que la mente estuviera con la mente y el cuerpo ausente.
«¿Por qué se ha perdido?», preguntó Joshua.
«Dime, Hölderlin, ¿cómo se dice en tu lengua distante como la palma de la mano?»
«Uuu», le respondía.
«Repite, Hölderlin, nunca había sentido arrepentimiento por marchar, ni remordimiento por quedarme.»
«Iii.»
«Dime, Hölderlin, ¿tu razón para marcharte no fue el amor?»
«Ooo.»

XI  Ni con aquel murmullo continuo de preguntas sería posible traerlo de vuelta. «Nunca más», reconoció con su realismo casi cruel, «volverá a alegrarse con el sentimiento de que estamos con él.»
Sucedía lo contrario.
Myriam veía crecer en el rostro de los que poseían el uso de la razón una risa forzada para disimular lo que veían; en medio de huevos y pequeños animales que habían quedado sobre la mesa a la puerta de la sala, Hölderlin se masturbaba meciéndose en el murmullo encantador de palabras Grecia dioses Grecia sol Joshua Joshua Cristo.
La excitación sexual se fue marcando en todos en torno al pobre tonto. Ningún barro se había transformado en pájaro. En esa situación de deseo sensual profundo acababa de entrar Giordano Bruno. Había dicho
lo escabroso en el amor es que no tiene anillo; pero no dijo nada, en sus pulmones el aire parecía penetrar por medio de una bomba
y todas las demás imágenes
habían
sido, hace mucho,
herméticamente cerradas. Hasta hoy.

Körtemberg, 23 de junio de 1985
                                          


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